
Ed Bell é um homem velho. As rugas são as marcas do tempo que já viveu. É um xerife de outros tempos. Logo no início de “Este país não é para velhos” recorda, com nostalgia, outros xerifes, num tempo em que para serem autoridade nem precisavam de usar a arma.
Ed Bell, interpretado por Tommy Lee Jones, não quer usar a arma. Mesmo confrontado com mortes violentas no seu território. Ao longo de toda a história só por uma vez tira a pistola do coldre e nem sequer a aponta a alguém. Serve apenas de segurança, contra quem possa querer evitar que atinja a reforma.
Ed Bell deseja a reforma. Até que esse dia surja, e não está longe, não quer ser alvo de nenhum tiro. Prefere jogar pelo seguro. Entra nos locais sempre depois do adjunto e prefere montar o cavalo mais certinho. Os casos difíceis não são para ele. É um homem perdido nos dias de hoje. Surpreende-se com os novos crimes e as suas causas. Em definitivo, este país - aquele país -, não é para homens velhos. Como ele.
Ed Bell tem um azar. Llewelyn Moss (Josh Brolin), um conterrâneo, encontra uma pasta cheia de dinheiro num cenário de cadáveres. É dinheiro da droga que Moss não hesita em querer guardar. Moss também tem um azar. Anton Chigurh quer esse dinheiro. Chigurh, uma interpretação extraordinária de Javier Bardem, não hesita em matar para atingir os seus fins. Sem remorsos e sem moral. Ou apenas a fazer depender a sua execução da opção entre caras ou coroas numa moeda que se atirou ao ar. Ali, no virar da moeda, está a decisão da vida e da morte para alguém.
E aqui está uma marca dos filmes dos irmãos Coen, onde as circunstâncias comandam a vida das personagens. A tal questão de oportunidade, estar no momento e no local certo.
A cobiça, pelo dinheiro, é o que faz mover Moss, Chigurh e outras personagens que nos remetem para o Texas profundo, ainda a sentir dificuldades para chegar aos novos tempos. Esta é a América de Bush, ex-governador do Estado. Com muito pouca esperança mas onde o dinheiro é quem mais ordena.
E chegamos à cobiça, uma presença constante no cinema dos irmãos Coen. Desde o primeiro filme, “Sangue por sangue”, já lá 24 anos, que as obras mais significativas da dupla ficaram marcadas pelo desejo. Seja de poder, de dinheiro, de sucesso. Foi assim em “Uma história de gansters”, em “Barton Fink”, em “O grande Lebowski”, em “Irmão onde estás?” e, sobretudo, foi assim em “Fargo”. Em “Este país não é para velhos” deixamos o frio do Dakota do Norte para o calor do Texas, deixamos a simples mas empenhada mulher polícia para encontrarmos um desencantado xerife, que prefere não ser incomodado. Mas continuamos a ter tudo. Há história, contada a bom ritmo, e com laivos de humor no meio de tanto desespero. Há cenário, em grandes planos de desolação. Há personagens, construídas com um rigor tal que podemos traçar o seu perfil, quase apresenta-las uma a uma, mesmo que apenas as tenhamos conhecido por breves momentos e há muito pouco tempo atrás. Há cinema.
“Este país não é para velhos” foi adaptado, pelos próprios Coen, de um romance de Cormarc McCarthy, escrito em 2005. Não foi, mas podia ter sido escrito a ‘pedir’ uma adaptação ao cinema. Por Joel e Ethan Coen, claro. Ainda bem que eles se lembraram disso.

